quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Desarticulação, tolerância e descrédito.

Texto publicado no Estadão Noite (23/09/2013)



O ano era 2003, o primeiro ano de Lula, e um processo – hoje amplamente conhecido – estava apenas começando: a migração de lideranças socioambientais, da sociedade civil organizada para o governo.

A assimilação de cabeças "ponto org" pelo mundo "ponto gov" soava como avanço rumo ao balanceamento da relação desenvolvimento vs meio ambiente. Havia um sentimento de que, finalmente, as questões socioambientais romperiam sua condição marginal na política econômica.

Na contramão daquela euforia das organizações independentes, publiquei um artigo, diga-se, pessimista. Sugeria o início de um processo de desarticulação dos movimentos socioambientais, e também descrevia como a tolerância da sociedade civil se elevava mediante as ações - ou falta delas - governamentais.

Provavelmente não foi um objetivo deliberado, mas talvez tenha sido um efeito colateral muito bem vindo ao governo. O que ocorria era o esvaziamento da massa crítica – em tese apartidária – capaz de argumentação contrária ao governo. Era, portanto, um alerta sobre a existência de um artificialismo que reduzia o conflito entre anseios socioambientais e o legado desenvolvimentista.

Foi neste contexto que, paradoxalmente, a agenda socioambiental foi sendo gradativamente preterida, empurrada novamente para a margem do velho crescimento econômico. Fóruns consultivos foram extintos e legislações, notadamente o Código Florestal Brasileiro, foram alteradas, num conjunto de ações tidas pela própria sociedade civil “remanescente”, como imenso retrocesso socioambiental.

Mas se por um lado as previsões foram acertadas, por outro, um terceiro processo, não imaginado no artigo de 2003, veio se intensificando. Trata-se do caminho inverso, ou seja, o mundo "ponto gov" também se arriscou dentro do mundo "ponto org"... Não tardou para que alguns dos nossos ilustres políticos vissem, no terceiro setor, novas formas de enriquecimento ilícito. Criaram suas próprias fundações e associações sem fins lucrativos, porém, obviamente, de mera fachada. O resultado, sabemos: desvio de recursos.

Este talvez tenha sido o efeito mais deletério para a sociedade civil organizada, especialmente para as entidades sérias que realmente trabalham pelo que se propõem em seus estatutos. Passaram a carregar um estigma que antes marcava apenas a política brasileira: o da corrupção.


Significa dizer que arrisquei uma previsão bem pessimista, 10 anos atrás... Teria sido mais assertivo se tivesse sido muito mais pessimista.

sábado, 21 de setembro de 2013

Respiração tributada

Embora não se pague imposto para respirar (pelo menos até agora), os impostos estão em tudo que possa ser precificado, sejam bens, sejam serviços. Não apenas impostos, mas também encargos e contribuições... Significa dizer que, neste exato momento, enquanto escrevo neste velho laptop guerreiro, estou consumindo energia onde incidem tributos e outros encargos. E já que estou conectado, também incidem os impostos e encargos que estarão na minha conta a pagar para a operadora de internet. 

Ok, e se eu resolver desligar tudo, nem comer esse belo feijão que me aguarda na cozinha, pois ele veio recheado de impostos, se eu simplesmente dormisse o dia inteiro, ficaria livre de impostos? Bom, estou usufruindo do meu condomínio e, ao pagá-lo, lá estão os impostos. 

Ok, então me mudarei para uma casa sem condomínio, não usarei gás, não usarei energia, não usarei água... Pronto, estou livre ? Não ! Teria ainda, no mínimo, o IPTU, e mesmo que me tornasse um indigente, as sobras e migalhas da minha sobrevivência seriam geradas pagando impostos. 

Então será que dá para dizer que não há impostos no ar que respiramos? Talvez não, mas a diferença é que não podemos parar de respirar, mas podemos parar, por um dia inteiro, todos juntos, de fazer algumas coisas que geram impostos...

Vem aí o dia sem imposto.

Aguarde!

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

De José Ninguém para Zé Alguém


Eis que ao passar pela Vila Mariana, região sul da capital paulista, José vê um aglomerado... Fotógrafos e cinegrafistas apontam suas lentes pra cima, jornalistas narram algo ao microfone. "Alguém vai pular do prédio?". Então José, que naquele dia de 18 de setembro de 2013 acabara de pagar suas contas no último minuto do horário bancário, agora com o bolso esvaziado, com tempo de sobra, e com milhões de preocupações lhe atormentando, resolveu olhar... Talvez a mórbida sublimação da desgraça alheia lhe acalentasse.  Mas não havia ninguém na janela do apartamento para onde todos olhavam. Ao contrário, as cortinas fechadas nem ao menos balançavam. 

Eis que, por volta de 17:00 horas, José escutou um grito de comemoração vindo do sombrio apartamento. Jornalistas se entreolharam, muxoxos estalaram, e o aglomerado se dispersou... José, um José ninguém, não sabia, mas o grito veio de outro José, este um Zé alguém: um Zé Dirceu.

Cabisbaixo, José Ninguém seguiu sem nada entender...

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Amnésia: o menor dos males

Dizem que eleitor brasileiro não tem memória... Que no ano seguinte já não lembra das mazelas de dado candidato e, o reelege.


Sem querer teorizar sobre possíveis variáveis explicativas da manutenção de velhas raposas no poder, arrisco dizer: seria muito bom se "apenas" uma amnésia do eleitor fosse o grande mal do Brasil.

Um exemplo emblemático deve ser visitado para rejeitar a hipótese da amnésia. Mas façamos tal visita de forma temporal diferente. Ao invés de tentar avaliar algum evento do passado que ninguém "lembra" mais, citemos um exemplo do presente que, no futuro próximo, ninguém "lembrará" mais: a questão do voto secreto dos parlamentares.

Pois bem, o evento do presente pode ser resumido da seguinte forma:

A Câmara dos Deputados aprovou proposta que prevê o fim do voto secreto dos parlamentares. Já o Senado Federal aprovou outra proposta, uma que prevê o fim do voto secreto, porém, somente em casos de cassação de mandatos. O que foi aprovado na câmara precisa ainda ser votado no senado. Já o que foi aprovado no senado precisa ser votado na câmara. Mas o discurso já está preparado: “Estamos atendendo as reivindicações das ruas".

-Será?

A PEC "da câmara" estava engavetada há 7 longos anos, e apenas agora alguém resolveu remover-lhe as teias de aranha... O atraso, por si só, já elimina a falácia de uma suposta sintonia entre o legislativo e o desejo popular. A PEC "do senado" levou menos tempo para ser aprovada pela casa, e bastaria agora ser votada na câmara. Seria um caminho mais curto, no entanto, não seria ainda um instrumento capaz de nos fornecer a tão almejada transparência.

Já o evento futuro pode ser resumido no contexto das eleições 2014.

Os jargões explorados pelos marqueteiros não serão mais os usuais: "mais saúde", "mais educação", blá blá blá... Serão, com todas as pompas, "manifestações de julho", "clamor popular", blá blá blá (2). Independente do que vier a ser, no final, posto para a sanção presidencial sobre abertura de voto dos parlamentares, a questão já traz, pela essência, um aspecto de “ganha-ganha” para os políticos e suas campanhas. Em outras palavras, independente da efetividade ou tempestividade das propostas, obviamente, TODOS os parlamentares exaltarão seus supostos papéis para mudar o país.

Neste ínterim, quando começar a ladainha eleitoral, não conseguiremos aferir legitimidade aos discursos nem identificar a falácia eleitoreira, e o problema, sem dúvida, não será a falta de memória. No ano que vem, provavelmente, assimilaremos aquilo que a mídia nos disser, e lembraremos do presente sem perceber que o estamos lendo superficialmente.

Não é, portanto, uma simples amnésia! É que ignoramos os buracos da informação, os quais serão preenchidos, oportunamente, no futuro.

Resolver isso é complexo? Sim, demais! Por isso mesmo “se” a falta de memória, se, tão somente ela, fosse o motivo das decisões eleitorais ... Ah, que bom seria!

Kemel Kalif

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Se é legal tá tudo bem?

Ministro da Fazenda falou e reafirmou: governo não considera novas desonerações em tributos e contribuições federais.

O argumento é que as desonerações já realizadas não deixariam mais espaço para novas reduções e/ou isenções de impostos. Governo estaria no limite daquilo que poderia renunciar em termos de arrecadação fiscal.

O problema é que, com tal declaração, governo considera, tão somente, se o nível de arrecadação será suficiente para pagar as contas públicas, mas não considera reduzir tais contas. Significa dizer, ignoram aquilo que é o motivo histórico dos descontentamentos: necessidade de cortes nos elevados gastos públicos.

E quando se fala em corte de gastos, não é corte de investimento, não é piorar serviços básicos como saúde e educação, não é eliminar uma secretaria ou um órgão essencial... Trata-se de cortar gastos com a soberba política e, se não é considerada uma soberba, trata-se, então, de discutir qual a necessidade, por exemplo, do volume atualmente destinado como verba de gabinete para parlamentares.

Segundo levantamento da ONG Transparência Brasil, um senador, por exemplo, custa R$ 33,4 milhões por ano, e um deputado federal custa R$ 6,6 milhões.

Para senadores tem o subsídio mensal e, além do 13º, tem 14º e 15º, recebidos, respectivamente, no início e no final de cada sessão legislativa. Têm também direito a 11 profissionais (seis assessores e cinco secretários parlamentares); verba Indenizatória de R$ 15 mil (para uso em gastos nos estados, com aluguel, gasolina, alimentação); auxílio-moradia (R$ 3.800); cota postal (varia segundo o número de eleitores do estado- Um senador do estado mais populoso, SP, tem direito a usar até R$ 60 mil/mês.Também têm cota telefônica (R$ 500 mensais); passagens aéreas (valor mínimo é de R$ 4,3 mil e máximo de R$ 16 mil); combustível (25 litros por dia); gráfica (R$ 8.500 por ano)...

Já deputados federais têm subsídio mensal, 13º, 14º e 15º salários; verba de gabinete de R$ 60 mil; verba indenizatória (R$ 15 mil, obs: verba pode ser acumulada); auxílio-moradia (R$ 3 mil); cota postal e telefônica (R$ 4.2687,55 para deputados, e R$ 5.513,09 para líderes e vice-líderes da Câmara, presidentes e vice-presidentes de comissões permanentes da Casa); passagens aéreas (valor mínimo é de R$ 4,3 mil e máximo de R$ 16 mil); gráfica (R$ 6 mil)...

E olha que não estamos falando nem dos deputados estaduais e vereadores, o que varia em números de representantes e nos montantes a que têm "direito" de gastar.

Ora, para manter uma estrutura dessas, é provável mesmo que reduções no volume arrecadado aumente o déficit público, seja no governo federal, seja nos estaduais ou nos municipais. Mas não é isso o que tem que vir a tona!

O que tem que emergir dessa declaração está nas entrelinhas, ou seja, significa que o governo não está disposto a reduzir gastos. Ao contrário, governo corre e, aos tropeços, abre as torneiras da verba pública para atender as emendas parlamentares. Com isso, tenta garantir a desobstrução das pautas que lhe são de interesse, ameaçadas de travamento pela própria base aliada – Aliás, diga-se, uma base mui amiga, daquelas que se constrói de forma tão coesa quanto rejunte feito com cuspe.

Na verdade, quem deveria falar sobre “impossibilidade de novas desonerações” seria a Presidência da República, e procurar lidar com própria fragilidade, e de sua base, o que inviabiliza os mencionados cortes de gastos públicos. Também deveriam dar as caras a Presidência do Senado e da Câmara dos Deputados, e explicar porque não abrem mão das dezenas de assessores familiares, desqualificados e fantasmas. Por fim, são os 81 senadores, 513 deputados federais, alguns milhares de deputados estaduais e vereadores, e mais um zilhão de supostos assessores e secretários, que precisam saber que o antiético é, por vezes, pior que o ilícito.


E no final das contas, vejamos a grande esperteza incutida na declaração do Ministro da Fazenda. Em uma só frase passa mensagens para apaziguar os ânimos de dois grupos distintos: De um o lado, para os parlamentares, o recado é: "não se preocupem, suas regalias não serão cortadas". Do outro, para a população, a grande mágica foi a de transformar em benefício uma péssima notícia. Em outras palavras, na medida em que fala, “estamos atentos às reivindicações das ruas", na verdade, quer dizer, "cobraremos mais e mais impostos, pois não importa se é ético, importa que é legal".

sábado, 10 de agosto de 2013

Afinal, o que é legítimo ?


Contra os maus tratos aos animais de brinquedo, ocorre, neste momento, uma manifestação dentro de casa... Manifestantes protestam também contra o monopólio dos bichos de pelúcia que ocupam cargos de destaque no quarto das crianças, e seguem, neste momento, em caminhada até a prateleira central. Já viraram 3 carrinhos hot wheels, bagunçaram um cubo mágico, agrediram um playmobil jornalista e saquearam o jogo banco imobiliário. Manifestantes dizem que existem soldadinhos de plástico infiltrados, disfarçados de my little pony, e que teriam incitado a quebradeira.



Legítimo é tudo aquilo que dado grupo, identificado por anseios comuns, disser que é legítimo !

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Carros feitos para andar somente na contramão

Montadoras, associações de engenheiros e até sindicatos estão pressionando para liberação, no Brasil, da comercialização de automóveis de passeio movidos a diesel. 

A argumentação pode até parecer convincente, afinal seria mais barato e até poderia poluir menos que a gasolina. Então tá, mas a questão não é essa! A questão é de matriz energética, de investimento na contramão da tendência de redução da dependência a não renováveis. Brasil foi pioneiro no programa proálcool, mas a falta de políticas setoriais quase que chafurdou tudo. A produção de alternativas como o biodiesel também não vem recebendo a devida atenção governamental. 

Agora, com o argumento de que o Brasil está auto suficiente em petróleo, querem jorrar o barril ? Mesmo que  os números de produção nacional de petróleo sejam verdadeiros, precisa lembrar que, assim como a dependência, a auto suficiência é temporária. É preciso considerar que as variáveis são dinâmicas e, independente da descoberta de novos poços, a única tendência imutável é de finitude do recurso. Em quanto tempo, não sabemos. Mas sabemos que é para isso que as nações têm que se preparar!


sexta-feira, 26 de julho de 2013

Decifra-me e te devorarei, mesmo assim!

Costumamos apelidar o Imposto de Renda de “leão”, e o porquê disso é mais do que intuitivo. Mas porque apenas o Imposto de Renda haveria de ter um apelido de um animal voraz, um grande predador? Acho que cada imposto, tributo ou contribuição compulsória merece um apelido de grande predador. Qual seria, então, o apelido do INSS, qual seria o do IPTU, do ITR, PIS, COFINS, ITBI/ITCMD, FUNRURAL, CSLL..?

Tá bom, vamos melhorar a situação. No lugar de quebrar a cabeça com cada imposto, vamos colocar tudo no mesmo saco e chamar aquele saco de “tributação”. Aí sim... Qual o animal que poderia ser usado para representar o conjunto de todos os impostos, tributos e contribuições federais, estaduais e municipais, no Brasil?

Apenas na mitologia existe uma criatura capaz de, intuitivamente, emprestar o nome aos tributos brasileiros: a Esfinge Grega!

Sim, a tributação é enigmática, é voraz... Lança seus enigmas e devora a tudo e a todos.

Basta você pensar numa pergunta simples, algo do tipo: “quanto custaria minha refeição se não existisse imposto?”. Para uma resposta exata, tantas variáveis haveriam de ser consideradas que, na certa, você seria a refeição da esfinge.

A diferença entre a esfinge e a tributação é que, no caso da primeira, o enigma é lançado e quem o desvendar será poupado. Já no caso da tributação, não. Mesmo a sapiência e a astúcia de Édipo Rei, o mitológico herói que derrotou a esfinge ao decifrar seu enigma, não seriam  páreas a desafiar a esfinge tributária brasileira.

Mas no final, o que importa é que não é preciso decifrar todas as facetas e artimanhas da nossa esfinge, na hora de exigir melhor eficiência no uso daquilo que ela tira de nós. Devemos mesmo é exigir que ela tenha um melhor metabolismo, que aproveite bem aquilo que come, que não seja uma obesa mórbida... A metáfora serve para a máquina estatal brasileira, para as administrações públicas, para as políticas tributárias, enfim, como é óbvio, para o uso adequado daquilo que é arrecadado.

O que falta talvez não seja uma dieta para a esfinge brasileira, pois sua fome tem uma razão de ser. Sua fome serve para equilibrar os cofres públicos e, logicamente, na medida em que nas entranhas destes cofres existem inúmeros parasitas, a fome nunca acaba. Mais do que uma dieta, a esfinge brasileira precisa é de remédio, um vermífugo, um carrapaticida, um combate generalizado contra os parasitas que habitam seu corpo: os políticos corruptos.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Deficit público ou desperdício público ?



Bom, como não poderia ser diferente, a revolta é grande !!!

Esse jantar do Henrique Eduardo Alves dado a seu partido, usando verba da câmara que está alocava na rubrica de despesas urgentes, é mais uma afronta! A soberba é tão grande que mesmo depois de usar jatinho da FAB para assistir jogo no Maracanã, o presidente da câmara continua desafiando o povo !
Veja, foram 28 mil gastos num jantar para 80 pessoas, ou seja, R$ 350,00 por pessoa. Meu almoço, promocional, custa 19,90 reais num sistema "all you can eat". Com esse dinheiro eu comeria á vontade por 17 dias, E se não tivessem impostos, provavelmente este meu almoço custaria uns 10 reais, e eu almoçaria então por um mês. Significa que os 28 mil gastos para o evento alimentariam, por um mês, 80 pessoas.

Conclusão: literalmente a comida é tirada de nossas bocas para alimentar a farra da realeza ! Tem alguma diferença entre isto e a idade média, onde cavaleiros armados arrancavam tudo que era de valor dos camponeses ?


sexta-feira, 12 de julho de 2013

A pulga e o barulho

Pois bem, como é do conhecimento geral, no dia 09/07/2013, foi votada a PEC 37/2011 - aquela que previa redução, de 2 para 1, do número de suplentes de Senador, e ainda restringia parentes como suplentes. Talvez sem imaginar a repercussão da não aprovação desta PEC, o placar de votação registrou 17 votos "não", ou seja, contra a aprovação; uma abstenção; 16 faltas...

A proposta não foi aprovada, pois os 46 votos a favor da PEC não completaram o mínimo necessário para aprovar uma proposta no senado (que seria de 49).

No dia seguinte, atônitos pelo impacto negativo da não aprovação, e pelos dedos virtuais apontados, os senadores desenterraram uma "Emenda 2 (Substitutivo) a PEC 11/2003", pondo em votação novamente a questão da redução de suplentes de senador, e restrição a nominação de parentes para tal suplência. E vejam, houve apenas um voto contrário, uma abstenção!

Quem faltou na votação do dia 09/07 nem se preocupou em correr para parecer "bem na foto", pois os 16 faltosos foram quase os mesmos nos dois dias. Os que haviam votado "não" anteriormente, estes sim é que correram para mudar seus votos na sessão do dia 10/07, e assim, quem sabe, evitar ter o nome estampado nos cartazes carregados pelo povo nas ruas.

Então senti uma coceira na orelha - era mosquito ?

Porque diabos não era uma votação com presença absoluta dos senadores, já que a mídia estava com lentes e microfones voltados ao Senado? Porque os faltosos pareciam não estar nem aí, enquanto que os que haviam votado "não", praticamente se acotovelavam para, rapidamente, registrar seu voto de "sim, sou a favor" ?

Foi então que percebi que aquela coceira não era de mosquito, era de pulga. E de lá de trás da orelha, a pulga me pinicava, e tentava até falar alguma coisa.

Bom, já que nunca fui bom em entender a voz da pulga, resolvi consultar quem entende...- não de pulga, mas de política - Me explicaram e, por fim, compreendi...- Não a política, mas a pulga.

A pulga fazia barulho, mas talvez fosse, dessa vez, uma caso de pulga escandalosa.

O fato é que ser suplente de senador não é ser vice de senador, suplente de senador não é remunerado e, neste ponto, pouco importa se tem 1, 2 ou mais suplentes! O que realmente importaria seria, neste pandemônio eleitoral, que o suplente fosse escolhido pelo voto (usar os mais votados para o senado seria uma boa opção). Na prática, quando votamos em um senador, estamos votando em mais 2 possíveis senadores, uma vez que o titular escolhe seus 2 suplentes. O suplente serve para assumir o cargo em caso de saída do senador para ocupar outro cargo, pedido de licença, renúncia, morte, etc. Significa dizer que, não raramente, alguém que não foi eleito pelo famoso voto direto da belíssima democracia brasileira, assume um mandato inteiro de senador.

Outro ponto, a restrição a nominação de parentes para a suplência, sim, é importante, mas seria completamente desnecessário se a escolha do suplente obedecesse o ranking dos votos apurados numa eleição. Mas, ao menos por enquanto, essa restrição é importante para evitar essa grande "capitania hereditária" que é atualmente o senado brasileiro (Veja: http://wwo.uai.com.br/UAI/html/sessao_3/2008/09/15/em_noticia_interna,id_sessao=3&id_noticia=79586/em_noticia_interna.shtml ).

A pulga poderia se proliferar rapidamente, chegar até as ruas... Por isso correram os políticos aos seus postos, trabalharam dobrado... Grande receio de impactos negativos em ano pré-eleitoral... A população  comemorou: passou a "PEC dos suplentes e parentes de senadores". Mas no final das contas, é apenas a voz da pulga que, invariavelmente, é renitente atrás das orelhas que não aguentam a soberba dos nossos políticos.No final, foi apenas um típico caso de pulga atrás da orelha, a mesma que faz muito barulho por nada.

Kemel Kalif

sábado, 16 de março de 2013

Charlatanismo histórico

Gosto do History Channel mas esses programas de alienígenas e disco voadores "do passado" são absolutamente patéticos, para não dizer criminosos! Ontem vi os caras querendo "provar" que a peste negra, aquela que dizimou 1/3 da Europa medieval, teve origem num ataque alienígena. Disserem que por volta de 1300 um navio chegou a Europa e os marinheiros estavam todos, "misteriosamente", infectados. Disseram que "relatos da época" falavam em "objetos no céu" espalhando uma "nuvem negra" na Europa, e que daí a peste negra se espalhou. PQP! Simplesmente ignoraram ao menos um século de histórica anterior, quando na Ásia e África já ocorriam infecções da peste negra pelo contato do ser humano com pulgas e carrapatos infectados pela bactéria. Ignoraram também os reais fatores de proliferação da doença. Cem anos depois, por volta de 1300, a bactéria encontrava um hospedeiro de fácil acesso, e amplamente distribuído por toda a Europa: o rato preto! É bom lembrar que o rato era parte aceita da paisagem dos centros urbanos da época, e não a figura nojenta, perigosa e cheia de doenças como significa hoje! A medicina era tomada por crenças religiosas e as técnicas de cura como a sangria, apenas adiantavam a morte. É óbvio que, na medida em que um rato poderia carregar cerca de 6 pulgas infectadas, o contato com os humanos foi desastroso! Tem que lembrar também que era época de grandes navegações e, com esta globalização, também se dava início a época das pandemias, especialmente num mundo pré penicilina. Daí a história todos já sabem, a peste negra, ou peste bubônica, resultou na morte de 1 em cada 3 pessoas da Europa, e isso, de fato, resultou num cenário apocalíptico. Agora vêm esses pseudo estudiosos desse papo no estilo Erich von Daniken estimular a ignorância para ganhar dinheiro em cima dela ! Um bando de charlatões se aproveitando da sociedade atual que, além de ler pouco, lê lixo no pouco que lê. O único fato histórico que há nisso é que charlatanismo e ignorância sempre caminharam de mãos dadas!

quinta-feira, 31 de maio de 2012


Para entender, ler o link:

Falta de lâmpada faz Prefeitura tirar de um semáforo para pôr em outro

http://www.estadao.com.br/noticias/cidades,falta-de-lampada-faz-prefeitura-tirar-de-um-semaforo-para-por-em-outro,880155,0.htm

segunda-feira, 21 de maio de 2012

sábado, 19 de maio de 2012


Enquanto isso, na Grande Maçã Desvairada: a questão da mobilidade urbana é tratada com respeito

sexta-feira, 18 de maio de 2012


Enquanto isso, na Grande Maçã Desvairava: o prelúdio da falência do transporte público....

sábado, 31 de março de 2012

Como dizem: o futuro que queremos (?)


Notícias da Rio +30 (2022): - Tiririca, Presidente do Brasil, fez a abertura da conferência.

Notícias da Rio + 40 (2032):- Inundação de cidades costeiras começa a convencer os céticos do aquecimento global; - Fundação Rockefeller vende pacote tecnológico para produção de carnes e vegetais in vitro

Notícias da Rio + 50 (2042):- Brasil ameaça queimar suas florestas remanescentes se não receber pagamento para mantê-las; - Sem apoio e vivendo a pior crise da história, EUA lançam a campanha "Estou pobre mas ainda tenho as armas, quer se aliar?"

Notícias da Rio + 60 (2052):-Invasão dos pólos Norte e Sul pela aliança Argentina, China, Reino Unido e EUA, foi o principal tema da conferência; -Doenças degenerativas ocasionadas pelo consumo de carne e vegetais in vitro recebeu pouca atenção.

Notícias da Rio + 70 (2062):- O preço da água potável se compara ao preço que os combustíveis fósseis alcançavam no final do século 20; -Brasil pede ajuda da ONU para proteger suas fontes de água potável; -Pólos Sul e Norte inauguram a era dos embargos climáticos, manipulando ventos e correntes marinhas, direcionando profundas mudanças climáticas a nações "inimigas"; -Ao exigir sua parte no acordo (devolução das Malvinas), a Argentina é expulsa da aliança China, Reino Unido e EUA.

Notícias da Rio + 80 (2072):-Líderes das nações atribuem a redução populacional às suas campanhas de conscientização e planejamento familiar, e rechaçaram dados científicos que apontam para o fenômeno de esterilidade humana; - Mundo comemora a completa abolição do uso de combustíveis fósseis; - Após 10 anos de da Primeira Guerra Climática, Brasil se rende ao poder dos Estados Unidos dos Pólos.

Notícias da Rio + 90 (2082):-Num protesto trágico, hidroativistas despejam sua quota anual de água na frente do centro de convenções. Após 4 dias sem água (data da última transmissão interneouronal), 800 dos 2000 hidroativistas ainda estavam vivos; -Neurohackers detidos, acusados de interromper a transmissão das mortes dos hidroativistas, foram relacionados à coca-cola (principal acionista da maior reserva de água potável mundial).

Notícias da Rio + 1 século (2092):-Mesmo após o fracasso da primeira missão de colonização de Europa, satélite de Júpiter, segunda nave parte com 30 humanos. O Presidente da Eurásia garantiu que computador "Hal 900 II" não iria pirar na maionese, dessa vez !

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Uma "evacuada" sustentável


Sabe, não há problema algum em usar sustentabilidade como marketing. Ao contrário, empresas que adotam medidas efetivas rumo a sustentabilidade podem, e devem, ser recompensadas. Mas o problema é que, percebendo as vantagens competitivas que o título de "sustentável" pode conferir, empresas vêm banalizando a comunicação sobre sustentabilidade, através de informações duvidosas nas embalagens de seus produtos.
            Lhes dou um exemplo, um amigo me procurou para me mostrar um recorte que fizera de uma embalagem de papel higiênico. 
- Somos sustentáveis até para "evacuar"... - brincou, logicamente, usando outro verbo de ação. E me perguntou se aquele carimbo não tinha a ver "com aquela história de fontes de celulose certificadas, sem problemas ambientais e sem mazelas trabalhistas".
Não, não tinha a ver... Era apenas uma impressão criada pela própria empresa, e que imitava um carimbo com os dizeres "compromisso com a sustentabilidade". Mas antes de dar o veredito de propaganda enganosa, e para descartar a possibilidade de que meu amigo houvesse recortado o local errado da embalagem, acessei a página do fabricante.
Após muito revirar, enfim apareceu um pequeno parágrafo. A justificativa do fabricante para estampar aqueles dizeres, dada em redundantes quatro frases, era a compra de um maquinário que permitia embalar um fardo de papel higiênico com 5% menos plástico. - Eis a banalização da palavra sustentabilidade.
O problema não estaria nem no percentual insignificante da redução, mas sim na forma com que a empresa, forçosamente, tenta passar a ideia de um compromisso que, sabemos, envolveria ações dentro das 3 grandes áreas da sustentabilidade: o ambiental, o social e o econômico. O problema é induzir um consumidor sensível a questões socioambientais a crer que aquele é um produto diferenciado, utilizando, para tanto, uma autodeclaração de peso que, na prática, trata-se de um aspecto trivial.
Para reduzir a possibilidade de engôdo, o consumidor pode adotar algumas premissas para julgar se um rótulo de sustentabilidade é, ou não, sério. O primeiro ponto é procurar saber quem conferiu a qualidade de sustentável a dado produto. O "quem", neste caso, espera-se que seja um organismo independente, não ligado a grupos econômicos ou governos, muito menos a própria empresa que recebe o status. O segundo passo é procurar saber em quais princípios está alicerçado o rótulo e se houve, na aferição de tal qualidade, um sistema de verificação realizado por terceira parte. Por fim, é de se esperar que o processo esteja documentado, disponibilizado, e de fácil acesso aos consumidores.
Isto posto, o veredito foi dado: - Até para "evacuar" podemos ser enganados.

domingo, 20 de novembro de 2011

O sujeito indeterminado


Com a proximidade do período das chuvas, chega também a época do “sujeito indeterminado”. Exemplos estarão, mais uma vez, no veredito da mídia e do povo acerca da responsabilidade pelas enchentes, inundações e alagamentos:

Jogaram lixo...”, “Entupiram o esgoto...

Juntamente com a aceitação a tal veredito, aceita-se também que o sistema de esgotos da cidade é suficiente para drenar as águas, e que ele só entope porque a população é mal educada. - Não creio serem inteiramente verdadeiras estas afirmações.

É bem verdade que qualquer tipo de via de escoamento da água, quando obstruída, não cumprirá sua função. É bem verdade também que existe muito lixo espalhado por aí, podendo ser carreado e obstruir o sistema de esgotos...Mas será verdade que esta é uma das principais causas dos alagamentos, todos os anos, em São Paulo ? Indo além, se realmente o lixo é o responsável, qual seria a parcela deste que é proveniente de despejo inapropriado, e qual a parcela que vem da inoperância no sistema de coleta ?

Apesar de não existirem respostas conclusivas para estas perguntas, a mídia e, especialmente, a prefeitura, já têm pronta a sentença: "Jogam lixo que entope os esgotos". Mas para que tal afirmação seja legítima, e não uma forma inteligente de se esquivar do problema, seria preciso, primeiramente, conhecer o volume total de líquidos e as dimensões da rede de esgoto, para então determinar se o sistema é suficiente para garantir a vazão. Isso seria comparado, então, a dados do quanto que o lixo limita aquela vazão.

Já a outra questão, se o sistema de coleta é eficiente, a prefeitura pode até estimar que, ao cobrir "X%" da cidade com a coleta de lixo, daria conta de "Y%" do volume total de lixo gerado nos bairros. Por razões óbvias - como toda informação que reflete o desempenho de uma gestão municipal - tal estimativa tenderia a ser aproximar dos 100% da área da cidade. Restaria, então, o verdadeiro culpado, o sujeito indeterminado: jogam lixo.

O uso deste sujeito como causador de todos os males, na verdade, é muito vantajoso para a prefeitura. O sujeito indeterminado é responsável pelas praças mal cuidadas, pelos poucos e péssimos banheiros públicos, pelas filas caóticas nos trens e metrôs, pelas calçadas destruídas, pelos engarrafamentos... Afinal, dentro do sujeito indeterminado estão os mal educados, e já que existe uma generalizada falta de cidadania, não é difícil convencer a sociedade de que o lixo dos mal educados é o causador dos esgotos entupidos, conseqüentemente, dos alagamentos.

Jogaram lixo...", "Entupiram o esgoto...”- Fecha-se o ciclo: não se acusa ninguém, livra-se do ônus da prova e, de quebra, da responsabilidade. O sujeito indeterminado é, sem dúvida alguma, o melhor bode expiatório que existe.